Indígena Sateré-Mawé vive hoje com prótese doada pelo programa
Floresta em Movimento dos Expedicionários da Saúde

“Eu gostava muito de caçar, pescar, nadar no rio, mas um dia fui caçar com o meu primo e meu o tio e foi quando sofri o acidente”, é assim que Silas Miquiles, indígena do povo Sateré-Mawé relembra as circunstâncias que levaram a amputação de parte da sua perna após uma mordida de cobra em 2007.

Morador da Aldeia Boa Fé, localizada no baixo Amazonas, no território Andirá-Marau, que fica na fronteira entre os estados do Pará e do Amazonas, ele conta que este acidente parou a sua vida, “eu fui desanimando, tinha vergonha dos meus amigos, não queria ir para a escola estava desistindo de estudar, parei na 6ª série”, conta ele.

No entanto, dois anos depois, ele viveria o encontro que mudaria seu rumo e que seria o primeiro passo do Programa “Floresta em Movimento” dos Expedicionários da Saúde (EDS). “Em 2009 me falaram que vinha um pessoal de Campinas, uma missão de saúde que já ajudava muito os povos indígenas, então eu fui na escola São Pedro, onde tinha o mutirão de exames e foi lá que o Dr. Ricardo me viu”, diz Silas.

Primeiro encontro de Silas com Dr. Ricardo e a equipe da EDS em 2009.

Dr. Ricardo Affonso Ferreira, fundador e presidente da EDS, lembra bem sobre como foi este dia, “estávamos em missão e vi este menino andando de muletas, pedi para examiná-lo, analisei a perna amputada, mas percebi que havia algo na barriga, me assustei: além da prótese vou ter que operá-lo de uma hérnia!”. Foi então que Silas tirou uma manga da bermuda. Dr. Ricardo percebeu que, por estar com as mãos ocupadas com as muletas, Silas tinha inventado um novo jeito para levar as frutas que colhia.

Deste encontro surgiu o convite para Silas viajar à Campinas e começar um tratamento para usar uma prótese. “Eu não tinha ideia do que era uma prótese, me explicaram que era como ganhar uma perna nova e que eu poderia voltar a correr e jogar bola, aí eu me animei”, conta Silas.

Ainda assim, Silas estava apreensivo, vivia com o trauma devido às tantas injeções e todo o procedimento que passou na amputação e, também não tinha ideia sobre como era a cidade grande. “Eu tinha medo, mas o Dr. Ricardo me explicou como era Campinas, que tinha muitos prédios, como era o avião e que fazia frio”, Silas, que sempre foi um menino curioso, decidiu aceitar a viagem.

Silas na sede da EDS em Campinas

 

O medo de Silas passou quando, na primeira consulta em Campinas, o Dr. Marcos Guedes, também amputado, mostrou sua prótese e pulou na frente dele. “Fiquei animado de novo, em duas semanas colocaram a minha perna só que na primeira não conseguia andar, depois eu fui me acostumando e aprendi a andar com a prótese”, explica.

Hoje um animado Silas se movimenta pela floresta e pelas cidades, caça, nada, joga futebol, vai a festas, voltou a estudar, e pensa em tentar o vestibular, quer ser médico e ajudar as pessoas como um dia fizeram com ele. “Desta vez, vim para Campinas para um ajuste no encaixe e joelho porque cresci bastante, estou com 28 anos e desde 2009 a EDS mudou minha vida. Eu sou muito grato, minha família também, a toda a equipe da EDS. Todos que ajudaram, todos que doaram, muita gratidão”, fala.

Comuns na floresta Amazônica os acidentes ofídicos (picada de cobra) têm como consequência comum as amputações devido a muitas dificuldades logísticas. Silas por exemplo, mora há 8 horas de barco até Barreirinha, a primeira comunidade onde há atendimento mais especializado em saúde, – até Parintins, maior cidade da região, são 10 horas de viagem. Além da demora no atendimento, também há grande dificuldade em conservar soro antiofídico nas comunidades por causa da falta de refrigeração adequada às altas temperaturas da área, o que impede um atendimento imediato.

Silas jogando futebol na Decathlon durante viagem à Campínas par renovar a prótese

O programa “Floresta em Movimento” da EDS realiza a doação e manutenção de próteses e cadeiras de rodas para crianças que tiveram suas pernas amputadas devido a picadas de cobras. Com o apoio da Fundação Decathlon e da clínica Próteses News a EDS traz os pacientes para São Paulo, entrega próteses adaptadas à região amazônica e fornece o treinamento necessário e manutenção até a idade adulta.

Em 23 anos de existência os Expedicionários da Saúde já realizaram mais de 170 mil exames, 11 mil cirurgias e 80 mil atendimentos. Um trabalho em cirurgias especializadas, atendimento oftalmológico, com mais de 10 mil óculos já doados, e odontologia dentro das áreas indígenas, garantindo saúde de qualidade para os povos originários e ajudando a preservar a floresta.

Veja o vídeo com a entrevista de Silas contando sua história no youtube: Silas, um acidente ofídico e o encontro que mudou vidas

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