O acesso à saúde ainda é um grande desafio para os povos indígenas que vivem em regiões de difícil acesso da Amazônia brasileira. Para quem precisa de uma cirurgia ou de um atendimento especializado, a distância até um hospital pode representar dias de deslocamento, além de dificuldades que comprometem a continuidade do cuidado.
É para transformar essa realidade que a EDS desenvolveu o Programa Operando na Amazônia, uma iniciativa que leva estruturas hospitalares completas até os territórios indígenas, permitindo que diferentes procedimentos médicos sejam realizados mais perto das comunidades.
Em vez de depender exclusivamente do deslocamento dos pacientes até os centros urbanos, o programa percorre o caminho inverso: leva o hospital até onde as pessoas estão.
Mas como é possível montar um hospital em meio à floresta? E o que é necessário para realizar cirurgias em locais onde o acesso à infraestrutura é limitado?
A seguir, conheça os desafios, a estrutura e as pessoas que tornam essa iniciativa possível.

Procedimento Cirúrgico Realizado no Complexo Hospitalar Móvel – Tecnologia Social EDS.
Por que o acesso à saúde indígena na Amazônia exige uma solução diferente?
A saúde indígena no Brasil conta com uma estrutura de atenção básica organizada por meio dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), vinculados à Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). Esses serviços desempenham um papel importante no acompanhamento das comunidades e na identificação de necessidades de saúde.
O processo de cuidado tem início na triagem, que avalia a gravidade e as prioridades de cada paciente. A partir dessa análise, a pessoa é encaminhada para consultas e exames especializados conforme o seu diagnóstico, reservando-se a cirurgia como último recurso, apenas em casos de extrema necessidade.
Em muitas regiões da Amazônia, chegar a um centro urbano significa enfrentar longos trajetos de barco, condições climáticas variáveis e dificuldades de transporte. Além disso, o deslocamento pode exigir que a pessoa permaneça longe de sua comunidade e de sua rede de apoio durante dias para o tratamento.

Indígenas chegando ao local para receber atendimento médico.
Essas barreiras dificultam o acesso aos serviços de média e alta complexidade e podem prolongar o tempo de espera por procedimentos importantes. Consequentemente, condições ou doenças que poderiam ser tratadas mais cedo podem se agravar.
É nesse contexto que o Programa Operando na Amazônia atua: aproximando o atendimento médico especializado dos povos indígenas e contribuindo para reduzir as barreiras geográficas que dificultam o acesso à saúde.

Como funciona o Complexo Hospitalar Móvel da EDS na Amazônia?
Montar um Complexo Hospitalar Móvel na Amazônia exige muito mais do que transportar equipamentos médicos. É necessário planejar cada etapa da operação, desde o reconhecimento das necessidades das comunidades até o deslocamento das equipes, a instalação da estrutura e a realização dos atendimentos.
Antes de cada expedição, a EDS realiza viagens precursoras para conhecer as condições locais, identificar as principais demandas de saúde e definir quais especialidades médicas e equipamentos serão necessários.
A partir desse levantamento, começa a preparação do Complexo Hospitalar Móvel, que pode incluir:
- Salas cirúrgicas equipadas: destinadas à realização dos procedimentos previstos para cada expedição.
- Áreas de atendimento clínico: espaços para consultas, avaliações e acompanhamento dos pacientes.
- Estruturas de pré e pós-operatório: ambientes preparados para receber e acompanhar os pacientes antes e depois das cirurgias.
- Sistemas de esterilização: equipamentos e processos necessários para a segurança dos procedimentos.
- Infraestrutura de apoio: soluções de energia, abastecimento de água, gestão de resíduos e comunicação, conforme as necessidades da operação.
Toda essa estrutura precisa chegar a regiões onde o transporte pode envolver barcos, aeronaves e deslocamentos terrestres. Em determinados trajetos, as condições dos rios exigem até mesmo a transferência de equipamentos entre diferentes meios de transporte.
Por isso, cada expedição depende de um planejamento cuidadoso para que a estrutura esteja preparada para receber os pacientes e oferecer condições adequadas de atendimento.
O resultado é um hospital temporário que aproxima a assistência especializada das comunidades indígenas, respeitando as particularidades e os desafios de cada território.


Mais de 20 toneladas de equipamentos são levadas até as comunidades indígenas para a realização das expedições.
Quem são os profissionais que tornam as expedições médicas possíveis?
Por trás de cada cirurgia realizada e de cada atendimento oferecido, existe uma grande equipe de profissionais que dedica tempo, conhecimento e experiência ao trabalho voluntário.
As expedições da EDS mobilizam profissionais de diferentes especialidades médicas, além de enfermeiros, técnicos e voluntários que atuam em áreas fundamentais para o funcionamento do hospital.
Enquanto as equipes de saúde realizam consultas, exames e procedimentos, outros profissionais trabalham nos bastidores para garantir que tudo aconteça. São pessoas responsáveis pelo transporte de equipamentos, montagem das estruturas, organização dos materiais, alimentação, tecnologia e suporte operacional.

Bastidores da construção do hospital na Terra Indígena Sateré-Mawé em agosto de 2026.
Assim, o voluntariado é uma parte essencial do Programa Operando na Amazônia. Cada profissional contribui com uma habilidade diferente, mas todos compartilham o mesmo propósito: tornar o atendimento médico possível em regiões de difícil acesso.

Foto: EDS/ Divulgação
Parcerias e governança: como o Programa Operando na Amazônia se sustenta?
Para que uma expedição médica aconteça, não basta reunir profissionais e equipamentos. Também é necessário construir uma rede de colaboração capaz de conectar as necessidades das comunidades à estrutura necessária para os atendimentos.
Nesse processo, a articulação com os órgãos responsáveis pela saúde indígena, incluindo os DSEI e a SESAI, é fundamental para compreender as demandas locais e organizar a assistência especializada.
Essa integração também contribui para o encaminhamento dos pacientes e para o acompanhamento dos cuidados após o encerramento das atividades do hospital.
Além da atuação conjunta com parceiros institucionais, cada expedição da EDS conta com o apoio de parceiros e doadores que contribuem para sua realização. Muitos desses parceiros acompanham a trajetória da organização e renovam seu compromisso a cada iniciativa, ajudando a viabilizar os atendimentos e a continuidade do trabalho nas comunidades indígenas.
As parcerias são importantes porque uma expedição envolve diferentes etapas de preparação, transporte, instalação e operação. Cada uma delas exige recursos, conhecimento técnico e uma organização cuidadosa.
Dessa forma, a continuidade do programa depende não apenas da realização dos atendimentos, mas também da construção de relações de confiança e de uma gestão comprometida com a utilização responsável dos recursos.
Expedição 59: a EDS retorna às origens para ampliar o acesso à saúde indígena
A EDS realiza, de 31 de outubro a 7 de novembro, a 59ª Expedição Operando na Amazônia, em Iauaretê, no Alto Rio Negro (AM). A ação reúne cerca de 60 voluntários e profissionais de saúde e logística e marca o início do projeto Cuidar para Preservar, iniciativa de quatro anos apoiada pelo Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES. A expedição também representa uma volta às origens da EDS, que realiza sua primeira missão em Iauaretê, em abril de 2004.
A equipe atua em quatro frentes: oftalmologia, cirurgia geral, saúde da mulher e pediatria, com cirurgias de catarata e pterígio, atendimento a casos de hérnia, prevenção e diagnóstico precoce do câncer do colo do útero, além de consultas, exames e ações de acompanhamento em saúde.
Ao longo de quatro anos, o Cuidar para Preservar integra expedições médico-cirúrgicas, assistência odontológica, fortalecimento da infraestrutura dos polos-base de saúde, teleatendimento, capacitação de profissionais locais e implantação de próteses para pessoas amputadas, por meio do programa Floresta em Movimento. O objetivo é ampliar o acesso à saúde especializada e fortalecer a assistência contínua às comunidades indígenas do Alto Rio Negro.
A Expedição 59 conta com o apoio do Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES, e é desenvolvida em articulação com o DSEI Alto Rio Negro, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), o Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi), a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), a Secretaria de Saúde de São Gabriel da Cachoeira, as comunidades indígenas locais e a 2ª Brigada de Selva de São Gabriel da Cachoeira.

Resultados do Operando na Amazônia: o que muda na vida das comunidades?
Ao longo de 23 anos de atuação, a EDS construiu uma trajetória marcada pela ampliação do acesso à saúde indígena, com resultados que demonstram a dimensão do trabalho realizado na Amazônia:
- 58 expedições realizadas
- Mais de 11 mil cirurgias
- Mais de 80 mil atendimentos
- Mais de 170 mil exames e procedimentos
- Mais de 9 mil óculos doados
- Mais de 300 voluntários
Cada indicador ajuda a contar uma parte dessa história. Afinal, por trás dos números existem pessoas, famílias e comunidades que passam a ter acesso a cuidados que antes exigiam deslocamentos complexos.
Uma cirurgia de catarata, por exemplo, pode representar a possibilidade de recuperar a visão e retomar atividades importantes do cotidiano. Da mesma forma, o acesso a uma avaliação especializada pode ajudar a identificar condições de saúde que precisam de acompanhamento e tratamento.
Cuidando da vida, preservando a floresta
A relação entre os povos indígenas e a Amazônia vai muito além da ocupação do território. Seus conhecimentos, modos de vida e práticas tradicionais fazem parte da história e da conservação da floresta.
Nesse contexto, promover o acesso à saúde indígena também significa reconhecer a importância das pessoas que vivem nesses territórios e contribuem para sua proteção.
Ao levar atendimento médico especializado a regiões de difícil acesso, o Programa Operando na Amazônia atua diretamente na promoção da saúde e do bem-estar das comunidades atendidas. Ao mesmo tempo, sua atuação está alinhada a uma visão mais ampla de valorização dos povos indígenas e de seus territórios.
Essa conexão faz parte da essência da EDS, expressa em seu compromisso de “Cuidando da vida, preservando a floresta”.
O programa demonstra como conhecimento médico, trabalho voluntário e colaboração podem se unir para enfrentar desafios históricos de acesso à saúde.
Porque cuidar da Amazônia também passa por reconhecer e cuidar das pessoas que vivem nela.

