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Os verdadeiros heróis na Amazônia

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Os verdadeiros heróis da Amazônia

A saga de médicos voluntários ajudando e salvando vidas na Amazônia. Uma jornada de imersão e cuidados na região do Médio Rio Negro, com direito a pequenos e grandes milagres da medicina moderna e gestos de imenso humanismo

Autor: Roman Nemec

Pouco depois das nove da manhã, sigo o José Sabino, 79 anos, até uma tenda cirúrgica grande e prateada, que lembra uma espaçonave à beira da floresta. As enfermeiras cuidam do paciente enquanto troco minha roupa por uma verde estéril. No centro cirúrgico, o ar é seco e resfriado a 19 graus. De máscara e touca entro na sala de cirurgia, onde o anestesista Múcio Abreu está aplicando um anestésico no olho direito do Sabino. Tudo está pronto para a cirurgia de catarata e o oftalmologista Bruno Tadao Uehara pega as ferramentas. Como espectador, através dos binóculos do poderoso microscópio Leica, observo o procedimento todo. Após cerca de 30 minutos acaba a cirurgia e o paciente vai para a zona pós-operatória, onde se deita na rede. Um enfermeiro dedicado cuida dele. Ao redor descansam outros pacientes de todas as idades e sexos e que passaram por procedimentos como cirurgia de hérnia, olho ou restauração de umbigo nas crianças pequenas.

Menos de 24 horas depois, encontro Sabino e os outros pacientes, todos com um olho tampado, na frente da oftalmologia. Há grande tensão em suas expressões. Médicos e enfermeiros, em camisetas brancas com uma cruz verde, aproximam-se dos pacientes e tiram com toda gentileza o curativo do olho operado. Depois de se acostumar com a luz do dia, os olhos dos pacientes e de alguns voluntários se enchem de lágrimas. “Eu te vejo!”, Sabino responde alegremente ao seu médico Dr. Tadao. Momentos como este são a maior recompensa pelo trabalho humanitário dos voluntários da saúde que, como verdadeiros heróis, tratam incansavelmente pacientes indígenas no meio de uma floresta tropical.

Contra fluxo do rio

Nuvens pesadas flutuam sobre o movimentado porto de São Raimundo, nos arredores de Manaus. Os ajudantes carregam a bagagem de passageiros para o porão do barco expresso Rosa Holanda, que em breve zarpará contra o fluxo do Rio Negro, em direção a São Gabriel da Cachoeira. As primeiras gotas gordas de uma chuva tropical, que se aproxima, agitam a superfície do majestoso rio de cor castanho-escuro. Libertado das cordas de atracação, o barco segue sua longa jornada acompanhado pelo potente ruído do motor. Juntamente com cerca de outros cinquenta passageiros, nosso grupo de cinco voluntários de diversas nacionalidades segue viagem. Através das janelas passam rapidamente as inúmeras ilhas do Parque Nacional de Anavilhanas, envoltas pelo mato eternamente verde. Quem comanda aqui é a natureza e nos sabemos bem, como são imprevisíveis as viagens amazônicas.

Nosso piloto navega de cor. “Olha, aqui no Anavilhanas o rio atinge uns incríveis vinte quilômetros de largura”, mostra-nos na tela do plotter. O Rosa Holanda viaja dia e noite pelos longos 760 quilômetros durante 22 horas, com apenas poucas e curtas paradas. Difícil de ser adquirida, uma passagem de ida a bordo de um barco desses representa um luxo para a maioria dos moradores da bacia do Rio Negro. A mesma rota, em barcos de madeira tradicionais, é concluída em dois dias e meio – o que pode ter consequências fatais se você precisar de atendimento médico emergencial.

Pela manhã chegamos a Cartucho, pequena aldeia indígena na margem esquerda do rio, perto do município de Santa Isabel do Rio Negro. Na beirada rochosa acolhem-nos o Cacique Germano, líder da comunidade, e também Márcia Abdala, coordenadora geral da ONG Expedicionários da Saúde (EDS). Nos últimos dias, Cartucho, com suas cerca de cinquenta famílias da etnia Baré e Baniwa, está extraordinariamente movimentada.

Enquanto passeamos pela aldeia, nosso olhar recai sobre casas de madeira, construídas principalmente sobre colunas. Uma escola, abrigos abertos com telhados de palha que servem para eventos sociais da comunidade e uma igreja católica branca e azul, que durante a próxima semana se transformará em recepção e ponto de registro dos pacientes.

À beira de uma grande área gramada, que serve tanto aos visitantes quanto aos locais como um campo de futebol, os militares ergueram grandes tendas verdes. Nos próximos dias servirão como dormitório para os 85 voluntários. “Como aqui costuma chover frequentemente, sugiro que vocês construam suas barracas sob a lona”, diz Márcia.

Também nos mostra instalações sanitárias com chuveiros construídos para a expedição, mas que continuarão a servir a comunidade. A primeira etapa do tour termina em um refeitório integrado à cozinha, dominada pelos Chefs André Carvalhaes e Carol Albuquerque, também voluntários. “Uma comida saborosa não só fornece energia, mas também encanta a alma”, revela André com um sorriso.

Jornada ao Pico da Neblina e o nascimento da EDS

Nesse curto tempo passado na beira da floresta, nossas roupas já estão todas encharcadas de suor. Sombra e um copo de água fresca caem muito bem. Ricardo Affonso Ferreira, ortopedista, cirurgião, cofundador e Presidente da ONG, entra no refeitório. Pelo rádio dá algumas importantes instruções organizacionais e senta-se conosco numa mesa redonda. É óbvio que ele ainda não parou desde cedo. “Sejam bem-vindos ao nosso time. Embora vocês tenham sido os primeiros a chegar, nossa equipe logística está aqui há mais de uma semana para garantir toda infraestrutura necessária, o que inclui a montagem do centro cirúrgico móvel, um ambulatório de oftalmologia, clínicas e da cozinha. Enfim, trabalham para que tudo esteja pronto quando os médicos chegarem hoje e se dedicarem aos pacientes. Vocês vão ver, será uma semana cheia de performances exigentes, confrontos de diferentes culturas e idiomas, mas também cheia de pequenos ou grandes milagres!”, acrescenta com um sorriso e determinação o carismático Dr. Ricardo.

Gesticulando com a mão, nos chama para a parede branca de madeira, onde os mapas da região estão pendurados, e seu dedo aponta para a fronteira do Brasil com a Venezuela. “Vocês podem não saber, mas foi nessa região, no médio Rio Negro, durante uma jornada ao Pico da Neblina, em 2002, onde começou a história de médicos voluntários, que se propuseram a fornecer assistência médica, em especial cirúrgica, às comunidades indígenas na Amazônia. Na pequena aldeia dos Yanomami, localizada abaixo do morro, eu e meu primo Martin, anestesista, vimos com nossos próprios olhos como uma hérnia pode complicar a vida de muitas mulheres e homens e como a catarata leva alguém da vida ativa à margem da sociedade, onde ele permanece incomodando o resto.”

Do mapa, voltamos à mesa e tomamos um café fresco preparado pelas indígenas locais. Depois de uma breve conversa pelo rádio, que quase nunca para de transmitir, Dr. Ricardo continua explicando. “O conhecimento médico dos índios é admirável de verdade, mas nos casos em que a cirurgia é inevitável, eles simplesmente não conseguem se ajudar. Se tal cirurgia for necessária, o paciente deve se locomover para a capital Manaus. Todo o processo é caro, demorado e muitas vezes espera-se até um ano para um procedimento cirúrgico simples. Pior ainda, a visão de uma vida aparentemente fácil na cidade pode mudar internamente um pescador ou caçador ingênuo.

Então percebemos que não os indígenas, mas nós, os médicos, temos de ir às suas aldeias para lhes fornecer ajuda médica. Em 2004, a primeira expedição nasceu com grande esforço. Nós nunca recebemos nenhum financiamento do governo, então somos dependentes de doações, de patrocínio, do aluguel de tecnologia médica e de voluntários especializados, como vocês, que vêm aqui para oferecer ajuda humanitária de maneira completamente altruísta.”

De repente, Márcia entra pelo rádio e anuncia que um barco com médicos está se aproximando. “Vocês têm que verificar agora se vocês estão ou não infectados com malária e eu vou receber os reforços.”, fecha a conversa com um sorriso.

Triagem na aldeia Boa Vista

Para realizar expedições médicas, como esta em Cartucho, a EDS e sua equipe de cinco colaboradores a planejam com vários meses de antecedência. Elas exigem enormes esforços, como por exemplo, transportar cerca de 15 toneladas de equipamentos, geradores, suprimentos médicos, remédios e alimentos. Também contam com o apoio não-financeiro de organizações governamentais como o da Fundação Nacional do Índio (Funai), Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), do Ministério da Saúde e do Ministério da Defesa. Juntos, eles têm um objetivo: fornecer proteção, dignidade e assistência médica, em especial cirúrgica, às comunidades indígenas geograficamente isoladas na Amazônia Legal Brasileira.

“Apesar das boas notícias sobre a chegada dos médicos se espalharem para as comunidades em uma área relativamente ampla, ainda é necessário enviar pessoal médico para as mais remotas. É preciso achar os pacientes e, muitas vezes, persuadi-los para que recebam assistência médica. O exército e a Força Aérea têm um papel essencial ao transportar os indígenas via helicóptero, balsa ou barco “voadeira”. “Uma delas está pronta para navegar!”, Dr. Ricardo aponta seu dedo para o barco verde do exército.

Na voadeira, além do condutor militar e de um intérprete do DSEI, a pediatra Priscila Gonçalves, com camiseta branca da EDS, está se preparando. Vestimos os coletes salva-vidas e o barco desce pelo rio. Após cerca de 20 minutos de navegação rápida desembarcamos não muito longe da aldeia Boa Vista. Quem nos acolhe é o cacique, vestido apenas de bermudas curtas, e nos convida para a sombra. Ele chama as crianças e elas se sentam num muro baixo enquanto aguardam, algumas delas acompanhadas por suas mães. Priscila examina todas, uma a uma, e quando uma das crianças não entende nosso idioma, o intérprete entra em ação. Do lado, para não a atrapalhar, observo como ela facilmente faz contato com as crianças desconhecidas e abaixa-se na altura delas para que possa olhá-las diretamente nos olhos.

Priscila pega nas mãos o estetoscópio e o coloca gentilmente no minúsculo peito de uma garota excepcionalmente loira que se afasta para a parede com um pouco de desconfiança. Examina sua barriga, umbigo, ouvidos e língua e já presta atenção para a próxima. No final da visita, dá conselhos para as mães e avós sobre higiene. Com bom humor, todos se reúnem no meio da aldeia para uma foto, enquanto o sol equatorial está batendo nas nossas cabeças. Um pequeno grupo de crianças e mulheres nos acompanham ao barco. Viajarão para Cartucho de acordo com a solicitação de Priscilla e serão submetidos a exames médicos e possíveis procedimentos cirúrgicos. A missão foi bem-sucedida e logo a voadeira zarpará de novo.

Imediatamente após a chegada, os pacientes são registrados e passam por teste de malária. Enquanto isso, os profissionais de saúde já ocuparam seus lugares e aguardam os pacientes encaminhados para suas áreas de especialização, como pediatria, odontologia, oftalmologia, ginecologia, clínica geral e cirurgia geral. Durante minhas visitas a cada departamento hospitalar me deparo com Dr. Ricardo. No rosto dele há tensão e alegria ao mesmo tempo. “Em breve pousarão os pacientes da tribo Yanomami. Juntos vamos acolhê-los”. Um instante depois o zumbido inconfundível do helicóptero Blackhawk das Forças Armadas do Brasil está no ar.

Do diário hospitalar

O sol acabou de nascer, mas a manhã em Cartucho já está bem movimentada. A cozinha foi a primeira a se agitar para preparar o café da manhã a todos. Em seguida despertam logísticos, médicos, pacientes e soldados, demonstrando energia e boa vontade. Organizar tantas profissões, culturas e línguas diferentes realmente requer muita experiência, paciência e também solidariedade. Vou para o abrigo onde os índios Yanomami da aldeia Tabuleiro penduraram suas coloridas redes.

Crianças seminuas correm ao redor de suas mães e avós. O visual deles distingue-se significativamente das outras etnias presentes. Tento conversar com Sandra Xamatari, 57 anos. Ela me observa com seus oblíquos e escuros olhos, enquanto sua filha se esconde atrás dela. Como não nos entendemos muito bem, apenas lhe explico gosto da pequena pena preta que ela carrega na orelha como se fosse um brinco. Ela responde com um sorriso simpático.

Os pacientes se deslocam lentamente para as clínicas, onde diferentes exames os aguardam ao longo do dia. Uma criançada se reúne em frente a uma tenda marrom, que serve para a odontologia. Dr. Gustavo Sebben se apresenta para as crianças e lhes dá uma escova de dentes e um creme dental de presente. Ele próprio saca uma grande mandíbula de plástico e o kit de higiene bucal e embarca numa demonstração de adequada escovação de dentes e língua. As crianças o imitam mais ou menos bem, causando sorrisos nos rostos dos espectadores.

Agora chegou a vez de Sandra e juntos entramos na clínica refrigerada, onde ela se senta numa poltrona odontológica, aparentemente pela primeira vez na sua vida. O dentista José Ferreira a acolhe e, depois de um check-up completo dos dentes, dá o veredito: “Há muito tempo que não encontro um paciente similar, na idade dela, sem nenhuma cárie. Agora estou apenas fazendo a higiene dental, removendo o tártaro. Pronto!”. Graças ao baixo consumo de açúcares e imunidade natural, os dentes permanecem saudáveis por um longo tempo.

Na sala de espera da oftalmologia, encontra-se um grupo de pacientes idosos de etnias misturadas. Antes de chamá-los para a consulta, cada um deles é testado para miopia. Em vez do teste ETDRS, como estamos acostumados, são apresentados com uma tabela de símbolos, visto que a maioria deles não sabe ler. Sento-me ao lado de um senhor cego chamado José Bento Sabino, da tribo Nadöb. Depois de um instante, ele me conta sua história e como ficou praticamente cego por vários anos. Mas agora, depois de remover a catarata, ele espera conseguir enxergar melhor. Infelizmente, o olho esquerdo não pode mais ser salvo, mas ainda há esperança para o direito.

O sol se põe lentamente, suas luzes alaranjadas e avermelhadas alcançam o majestoso rio, e em Cartucho termina outro dia desafiador. De repente se espalha a notícia sobre a chegada do bispo Dom Edson Damião de São Gabriel da Cachoeira. Durante a missa da noite, ele agradece aos voluntários da EDS e a Deus por curar os pacientes.

Momento de partir

Depois de uma semana em Cartucho a equipe médica volta à rotina, para suas clínicas.. A coordenação da ONG Expedicionários da Saúde está avaliando o sucesso da 42ª expedição na Amazônia Legal Brasileira. “Os resultados são agradavelmente surpreendentes: 353 cirurgias, 2.289 consultas médicas e odontológicas e 6.828 exames e procedimentos. Esses números superam os desempenhos semanais dos hospitais de médio a grande porte no Brasil. A expedição serviu a grupos étnicos como Baré, Desana, Pira-Tapuya, Tukano, Siriano, Baniwa e Yanomami”, explica Márcia. No entanto, é apenas uma amostra pequena de cerca de oitocentos mil índios, de mais de 300 comunidades, onde se falam 170 línguas. Estima-se que ainda existam entre 50 e 100 tribos não contatadas na grande Amazônia, cerca de cinco mil nativos Americanos.

 Boas notícias sobre os Expedicionários da Saúde se espalham não apenas pelo Brasil, mas também no mundo inteiro e cada ano a lista de voluntários fica maior. No final, o Cacique Germano e os habitantes da aldeia de Cartucho nos agradecem por tudo e despedem-se com um coral comovente. A gratidão não tem idioma.

Roman Nemec

Mais de 300 voluntários cobriram uma área de mais de 500 mil km2 desde 2004

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Dignidade e Saúde para a Comunidade Indígena